sexta-feira, 19 de maio de 2006

Admirável gado novo

Autor de uma obra surrealista, que funde o rock com o repente nordestino, o paraibano Zé Ramalho atinge um de seus melhores momentos com “Admirável Gado Novo” que, gravado no elepê A peleja do diabo com o dono do céu, o tornou conhecido em todo o país. Inspirada no título Admirável mundo novo, de um livro de Aldous Huxley, a composição comenta a sina do povão, que se repete em cada geração, manejada pelos interesses dos poderosos. Isso é exposto em três veementes estrofes, que são intercaladas por um refrão-aboio, seco e irônico: “Eh eh ô vida de gado / povo marcado, eh / povo feliz...”

Ramalho é o melhor intérprete de sua própria obra, com uma voz rude e cavernosa que complementa e dá convicção ao mundo contraditório, delirante e apocalíptico que a caracteriza. Dezesseis anos depois de seu lançamento, “Admirável Gado Novo” funcionaria como tema dos “sem terra”, na telenovela “O Rei do Gado”, da Rede Globo, puxando a vendagem do disco, recordista com quase dois milhões de cópias (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Admirável gado novo - 1980 - Zé Ramalho
(intro) ( D  D5+  D6  D5+ )

D Bb5+ Bm Bb5+
Vocês que fazem parte dessa massa
D Bb5+ Bm Bb5+
que passa nos projetos do futuro
D Bb5+ Bm Bb5+
É duro tanto ter que caminhar
D Bb5+ Bm Bb5+
e dar muito mais do que receber

Em F#7 Bm A
E ter que demonstrar sua coragem
Em F#7 Bm A
à margem do que possa parecer
Em F#7 Bm A
E ver que toda essa engrenagem
Em F#7 Bm A7
já sente a ferrugem lhe comer

(D G)
Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

D Bb5+ Bm Bb5+
Lá fora faz um tempo confortável,
D Bb5+ Bm Bb5+
a vigilância cuida do normal
D Bb5+ Bm Bb5+
Os automóveis ouvem a notícia,
D Bb5+ Bm Bb5+
os homens a publicam no jornal
Em F#7 Bm A Em F#7 Bm A
E correm através da madrugada a única velhice que chegou
Em F#7 Bm A Em F#7 Bm A
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar o que sobrou

(D G)
Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

D Bb5+ Bm Bb5+
O povo foge da ignorância
D Bb5+ Bm Bb5+
apesar de viver tão perto dela
  D Bb5+ Bm Bb5+
E sonham com melhores tempos idos,
D Bb5+ Bm Bb5+
contemplam essa vida numa cela
Em F#7 Bm A Em F#7 Bm A
Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar
Em F#7 Bm A Em F#7 Bm A
A arca de Noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar

(D G)
Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

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