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domingo, 16 de março de 2008

Seu condutor

Seu condutor (marcha/carnaval, 1938) - Alvarenga, Ranchinho e Herivelto Martins
Alvarenga e Ranchinho

Seu condutor
Dim, dim
Seu condutor
Dim, dim
Pára o bonde
Pra descer o meu amor

O bonde da Lapa
É cem réis na chapa
O bonde Uruguai
É duzentos que vai
O bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E a Praça Tiradente
Não serve pra gente

Seu condutor

Seu condutor (marcha/carnaval, 1938) - Alvarenga, Ranchinho e Herivelto Martins
Alvarenga e Ranchinho

Seu condutor
Dim, dim
Seu condutor
Dim, dim
Pára o bonde
Pra descer o meu amor

O bonde da Lapa
É cem réis na chapa
O bonde Uruguai
É duzentos que vai
O bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E a Praça Tiradente
Não serve pra gente

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Valsa do assobio

Alvarenga e Ranchinho

Nós vai agora cantar
Pedimos pra quem não gostar
Não liga não, faz assim

Se você ta pra beijar
E o pai da moça chegar
Não liga não, faz assim

Se tarde em casa chegar
E a mulher quiser brigar
Não liga não, faz assim

O senhor eu vem cobra
Você não tem pra pagar
Não liga não, faz assim

Valsa do assobio

Alvarenga e Ranchinho

Nós vai agora cantar
Pedimos pra quem não gostar
Não liga não, faz assim

Se você ta pra beijar
E o pai da moça chegar
Não liga não, faz assim

Se tarde em casa chegar
E a mulher quiser brigar
Não liga não, faz assim

O senhor eu vem cobra
Você não tem pra pagar
Não liga não, faz assim

Moda das línguas

Alvarenga e Ranchinho

É verdade matemática
Que ninguém pode negar
Que essa história de gramática
Só serve é pra atrapaiar
Ainda vem língua estrangeira
Pra ajudar a compricar
É mior nóis cabar com isso
Pra nós todos poder falar

Na Inglaterra eu vi dizer
Que um pé de sapato é chu
Sendo assim logo se vê
Dois pés tem que ser chuchu
Chuchu pra nóis é legume
No duro, não é boato
Os ingreis que lá se arrume
Mas nóis num come sapato

Na América corpo é bode
Veja que bode vai dar
Encontrei uma americana
Louca pro bode entregar
Fiquei meio atrapaiado
E disse pra me safar
Óia dona, eu não sou cabra
Sai com esse bode pra lá

Em Chile, cueca é dança
Pra se cantar e bailar
Lá se toca e baila cueca
Asta la fiesta acabar
Mas se acaso algum chileno
Vier pro Brasil dançar
Que tente mostrar a cueca
Pra ver ondé que vai parar

Na Itália eu vi dizer
E não sei por que razão
Que manteiga lá é burro
Se passa burro no pão
Desse jeito pra mim chega
Viva nóis lá do sertão
Onde manteiga é manteiga
Nós não come burro, não

Uma gravata esquisita
Um certo franceis me deu
Perguntei onde botar
Ele então me arrespondeu
Mas num gostei da resposta
Isso é que não faço eu
Seu franceis mal educado
Ponha a gravata no seu

Na Argentina ouvi dizer
Que saco é paletó
Lá se o gringo toma chuva
Tem que pôr o saco no sor
E se acaso o dito encóie
A muié lhe diz a pior
Tu saco está mui tiquito
Vá arranjar um saco maior

Moda das línguas

Alvarenga e Ranchinho

É verdade matemática
Que ninguém pode negar
Que essa história de gramática
Só serve é pra atrapaiar
Ainda vem língua estrangeira
Pra ajudar a compricar
É mior nóis cabar com isso
Pra nós todos poder falar

Na Inglaterra eu vi dizer
Que um pé de sapato é chu
Sendo assim logo se vê
Dois pés tem que ser chuchu
Chuchu pra nóis é legume
No duro, não é boato
Os ingreis que lá se arrume
Mas nóis num come sapato

Na América corpo é bode
Veja que bode vai dar
Encontrei uma americana
Louca pro bode entregar
Fiquei meio atrapaiado
E disse pra me safar
Óia dona, eu não sou cabra
Sai com esse bode pra lá

Em Chile, cueca é dança
Pra se cantar e bailar
Lá se toca e baila cueca
Asta la fiesta acabar
Mas se acaso algum chileno
Vier pro Brasil dançar
Que tente mostrar a cueca
Pra ver ondé que vai parar

Na Itália eu vi dizer
E não sei por que razão
Que manteiga lá é burro
Se passa burro no pão
Desse jeito pra mim chega
Viva nóis lá do sertão
Onde manteiga é manteiga
Nós não come burro, não

Uma gravata esquisita
Um certo franceis me deu
Perguntei onde botar
Ele então me arrespondeu
Mas num gostei da resposta
Isso é que não faço eu
Seu franceis mal educado
Ponha a gravata no seu

Na Argentina ouvi dizer
Que saco é paletó
Lá se o gringo toma chuva
Tem que pôr o saco no sor
E se acaso o dito encóie
A muié lhe diz a pior
Tu saco está mui tiquito
Vá arranjar um saco maior

Horóscopo

Alvarenga e Ranchinho

Quem ainda não casou
Não se case em janeiro
Que a desgraça desse mês
Se arrepete o ano inteiro
Não se case em fevereiro
Fevereiro é mês faiado
Quem se casa nesse mês
Os fios nascem pelados

Não se case no mês de março
Nem que seja por decreto
Criança do mês de março
Nasce tudo analfabeto
Não se case no mês de abril
Nem que seja pra ter gozo
Quem se casa nesse mês
Nasce os fios mentiroso

Cuidado com o mês de maio
Não se case nem a muque
Criança do mês de maio
Já vem dançando botuque
Criança do mês de junho
Nasce tudo com mau cheiro
Já nasce soltando bomba
Desde o berço é fogueiro

Não se case no mês de julho
Esse mês é perigoso
Criança do mês de julho
Nasce tudo revoltoso
Agosto mês do desgosto
Principalmente para quem ama
Quem nasce no mês de agosto
Faz pipi na cama

Quem casa em setembro
Precisa ter muita sorte
Que as crianças mal dá as caras
Querem independência ou morte
Em outubro seu Colombo
Descobriu um mundo novo
Quem nasce no mês de outubro
Acaba botando ovo

Em novembro seu Deodoro
Provou que tinha tutano
As crianças de novembro
Já nasce republicano
Quem chegou inté dezembro
Vivendo sempre solteiro
Não vai estragar no fim
a sorte de um ano inteiro

Horóscopo

Alvarenga e Ranchinho

Quem ainda não casou
Não se case em janeiro
Que a desgraça desse mês
Se arrepete o ano inteiro
Não se case em fevereiro
Fevereiro é mês faiado
Quem se casa nesse mês
Os fios nascem pelados

Não se case no mês de março
Nem que seja por decreto
Criança do mês de março
Nasce tudo analfabeto
Não se case no mês de abril
Nem que seja pra ter gozo
Quem se casa nesse mês
Nasce os fios mentiroso

Cuidado com o mês de maio
Não se case nem a muque
Criança do mês de maio
Já vem dançando botuque
Criança do mês de junho
Nasce tudo com mau cheiro
Já nasce soltando bomba
Desde o berço é fogueiro

Não se case no mês de julho
Esse mês é perigoso
Criança do mês de julho
Nasce tudo revoltoso
Agosto mês do desgosto
Principalmente para quem ama
Quem nasce no mês de agosto
Faz pipi na cama

Quem casa em setembro
Precisa ter muita sorte
Que as crianças mal dá as caras
Querem independência ou morte
Em outubro seu Colombo
Descobriu um mundo novo
Quem nasce no mês de outubro
Acaba botando ovo

Em novembro seu Deodoro
Provou que tinha tutano
As crianças de novembro
Já nasce republicano
Quem chegou inté dezembro
Vivendo sempre solteiro
Não vai estragar no fim
a sorte de um ano inteiro

Êh São Paulo

Alvarenga e Ranchinho

Êh, São Paulo
Êh São Paulo
São Paulo da garoa
São Paulo que terra boa

São Paulo da noite fria
Ao cair da madrugada
As campinas verdejantes
Coberta pela geada

São Paulo do céu anil
Da noite enluarada
Da linda manhã de sol
No raiar da madrugada

Êh São Paulo

Alvarenga e Ranchinho

Êh, São Paulo
Êh São Paulo
São Paulo da garoa
São Paulo que terra boa

São Paulo da noite fria
Ao cair da madrugada
As campinas verdejantes
Coberta pela geada

São Paulo do céu anil
Da noite enluarada
Da linda manhã de sol
No raiar da madrugada

Cumpadre como é que ta tu?

Alvarenga e Ranchinho

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

To com tudo, to com tudo
Eu sou mesmo felizardo
To com tudo meu cumpadre
To com tudo empenhado

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Casamento e loteria
Vou dizer, sou muito franco
Me casei, fui conferir
O bilhete tava branco

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Roubaram minha muié
Só pra me fazer sofrer
Eu procuro o ladrão
Quero lhe agradecer

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Minha casa pegou fogo
Ardeu tudo de repente
Minha sogra tava dentro
Veja como to contente

Cumpadre como é que ta tu?

Alvarenga e Ranchinho

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

To com tudo, to com tudo
Eu sou mesmo felizardo
To com tudo meu cumpadre
To com tudo empenhado

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Casamento e loteria
Vou dizer, sou muito franco
Me casei, fui conferir
O bilhete tava branco

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Roubaram minha muié
Só pra me fazer sofrer
Eu procuro o ladrão
Quero lhe agradecer

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Minha casa pegou fogo
Ardeu tudo de repente
Minha sogra tava dentro
Veja como to contente

Casa de páia

Alvarenga e Ranchinho

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Neste tempo eu fui amado
Por um anjo divinar
Minha casinha de páia
Era meu doce idear.

Parecia uma frô de taipa,

sonhando no matagar
Parecia uma frô de taipa,
sonhando no matagar

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Na casinha pequenina
Não houve nunca lamento
Suportou a chuva forte,
Suportou os pé de vento.

Era pequenina por fora mas muito
maior por dentro
Era pequenina por fora

mas muito maior por dentro

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Lá dentro dessa casinha
Viveu meu amor profundo
Lá viveu a minha bela,
Fia do Chico Raimundo

A casa menor da terra, o amor maior do mundo
A casa menor da terra o amor maior do mundo

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Casa de páia

Alvarenga e Ranchinho

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Neste tempo eu fui amado
Por um anjo divinar
Minha casinha de páia
Era meu doce idear.

Parecia uma frô de taipa,

sonhando no matagar
Parecia uma frô de taipa,
sonhando no matagar

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Na casinha pequenina
Não houve nunca lamento
Suportou a chuva forte,
Suportou os pé de vento.

Era pequenina por fora mas muito
maior por dentro
Era pequenina por fora

mas muito maior por dentro

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Lá dentro dessa casinha
Viveu meu amor profundo
Lá viveu a minha bela,
Fia do Chico Raimundo

A casa menor da terra, o amor maior do mundo
A casa menor da terra o amor maior do mundo

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Calango

Alvarenga e Ranchinho

É do calango
É do calango do joá

Aprendi a cantar calango
Numa noite de Natá
Bebendo café com leite
E bolinho de fubá

É do calango
É do calango do joá

Bebi leite de cem vacas
Na porteira do curral
Não bebi de 120
Porque não quiseram dar

É do calango
É do calango do joá

Que eu andei 50 léguas
No lombo de uma preá
Mandioca no tipiti
Dá farinha e dá jubá

É do calango
É do calango do joá

Esta moda do calango
Vou cantando sem parar
Canto a moda do calango
Até o canto melhorar

É do calango
É do calango do joá

Menina de 11 anos
Chora pra me acompanhar
Quem não tem peneira fina
Não pode coar fubá

É do calango
É do calango do joá

Aquela flor

Alvarenga e Ranchinho

Aquela flor que você me deu
Eu guardo ainda no peito meu
Aquela flor conserva ainda
O perfume que é todo seu

Sinto me feliz ao relembrar
Quanto amei e fui amado
Hoje guardo essa flor
O que resta do nosso amor

Aquela flor
Me faz chorar
Me faz lembrar
O nosso encontro
Ao luar
Nas linda noites
De verão

Daquele beijo de final
Sem igual
Que eu roubei
Dos lábios teus
Prendeu meu coração

Adeus Mariazinha

Alvarenga e Ranchinho

Adeus Mariazinha
Eu vou me embora
Pois chegou a hora
De cumprir obrigação
Defender nosso torrão

O Brasil esta chamando
Sou brasileiro já vou chegando
O Brasil esta chamando
Sou brasileiro já vou chegando

Ai o meu Brasil
Este Brasil
Que eu quero tanto bem
Que no passado
Brigou um bocado
E nunca perdeu pra ninguém

Mariazinha, meu botão de rosa
Minha flor mimosa
Meu maracujá
Não fique
triste, oh Mariazinha
Que um dia eu volto
Para te buscar

Gabriela

Alvarenga e Ranchinho

Eu conheci Gabriela
Na festa da casa do seu Serafim
Quando eu olhei pra ela
Ela olhava pra mim
Moço fiquei vermelho
E ela mais crenca do que um jasmim
E eu olhava pra ela
Torci a gravata sorrindo assim

Depois eu vi Gabriela
Comprando na feira lá de Bom Jardim
Eu fui chegando pra ela
E fui dizendo assim
Minha flor Gabriela
Eu gosto de tu e tu gosta de mim
Ela baixou a cabeça
Com um dedo na boca sorrindo assim

Eu casei com Gabriela
E a festa foi paga por seu Serafim
Eu dei um beijoi pra ela
Ela deu beijo pra mim
Quando já era bem tarde
Que a festa já tava até dando fim
Os convidado passava
Olhando pra gente sorrindo assim

Eu garrei com Gabriela
Rumamo pra casa sozinho em fim
Quando pegamo no sono
O galo cantou assim
Quando acordei Gabriela
Já tava acordada olhando pra mim
E eu olhando pra ela
Os dois bem vermelho sorrimo assim

Drama da Angélica

Alvarenga e Ranchinho

Drama da Angélica (toada, 1943) - Alvarenga e M. G. Barreto

Ouve meu cântico / Quase sem ritmo
E a voz de um tísico / Magro e esquelético
Poesia ética / Em forma esdrúxula
Feita sem métrica / Com rima rápida.

Amei Angélica / Mulher anêmica
De cores pálidas / E gestos tímidos
Era maligna / E tinha ímpetos
De fazer cócegas / No meu esôfago.

Em noite frígida / Fomos ao lírico
Ouvir o músico / Pianista célebre
Soprava o zéfiro / Ventinho úmido
E então Angélica / Ficou asmática.

Fomos ao médico / De muita clínica
Com muita prática / E preço módico
Depois do inquérito / Descobre o clínico
Um mal atávico / Mal sifilítico.

Mandou-me célere / Comprar noz-vômica
E ácido cítrico / Para o seu fígado
E o farmacêutico / Mocinho estúpido
Errou na fórmula / Fez de propósito.

Não teve escrúpulo / Deu-me sem rótulo
Ácido fênico / E ácido prússico
Corri mui lépido / Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico / De força múltipla.

O dia cálido / Deixou-me tépido
Achei Angélica / Já toda trêmula
A terapêutica / Dose alopática
Lhe dei em xícaras / De ferro ágape.

Tomou num fôlego / Triste e bucólica
Essa estrambólica / Droga fatídica
Caiu no esôfago / Deixou-a lívida
Dando-lhe cólica / E morte trágica.

O pai de Angélica / Chefe do tráfego
Homem carnívoro / Ficou perplexo
Por ser estrábico / Usava óculos
Um vidro côncavo / E outro convexo.

Morreu Angélica / De um modo lúgubre
Moléstia crônica / Levou-a ao túmulo
Foi feita autópsia / E todos os médicos
Foram unânimes / No diagnóstico.

Fiz um sarcófago / Assaz artístico
Todo de mármore / Na cor do ébano
E sobre o túmulo / Uma estatística
Coisa metódica / Como os Lusíadas.

E numa lápide / Paralelepípedo
Pus este dístico / Terno e simbólico
Cá jaz Angélica / Moça hiperbólica
Beleza helênica / Morreu de cólica !....

Drama da Angélica

Alvarenga e Ranchinho

Drama da Angélica (toada, 1943) - Alvarenga e M. G. Barreto

Ouve meu cântico / Quase sem ritmo
E a voz de um tísico / Magro e esquelético
Poesia ética / Em forma esdrúxula
Feita sem métrica / Com rima rápida.

Amei Angélica / Mulher anêmica
De cores pálidas / E gestos tímidos
Era maligna / E tinha ímpetos
De fazer cócegas / No meu esôfago.

Em noite frígida / Fomos ao lírico
Ouvir o músico / Pianista célebre
Soprava o zéfiro / Ventinho úmido
E então Angélica / Ficou asmática.

Fomos ao médico / De muita clínica
Com muita prática / E preço módico
Depois do inquérito / Descobre o clínico
Um mal atávico / Mal sifilítico.

Mandou-me célere / Comprar noz-vômica
E ácido cítrico / Para o seu fígado
E o farmacêutico / Mocinho estúpido
Errou na fórmula / Fez de propósito.

Não teve escrúpulo / Deu-me sem rótulo
Ácido fênico / E ácido prússico
Corri mui lépido / Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico / De força múltipla.

O dia cálido / Deixou-me tépido
Achei Angélica / Já toda trêmula
A terapêutica / Dose alopática
Lhe dei em xícaras / De ferro ágape.

Tomou num fôlego / Triste e bucólica
Essa estrambólica / Droga fatídica
Caiu no esôfago / Deixou-a lívida
Dando-lhe cólica / E morte trágica.

O pai de Angélica / Chefe do tráfego
Homem carnívoro / Ficou perplexo
Por ser estrábico / Usava óculos
Um vidro côncavo / E outro convexo.

Morreu Angélica / De um modo lúgubre
Moléstia crônica / Levou-a ao túmulo
Foi feita autópsia / E todos os médicos
Foram unânimes / No diagnóstico.

Fiz um sarcófago / Assaz artístico
Todo de mármore / Na cor do ébano
E sobre o túmulo / Uma estatística
Coisa metódica / Como os Lusíadas.

E numa lápide / Paralelepípedo
Pus este dístico / Terno e simbólico
Cá jaz Angélica / Moça hiperbólica
Beleza helênica / Morreu de cólica !....