sábado, 29 de abril de 2006

O bonde de São Januário

Órgão importante da ditadura estadonovense, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) não só controlava a imprensa e as diversões como também procurava interferir na criatividade dos artistas, através de "conselhos" e "sugestões".

Assim, no início dos anos quarenta, achando que existia muito samba fazendo a apologia da malandragem, o DIP "aconselhou" os compositores a adotarem temas de exaltação ao trabalho e condenação à boemia.

A aceitação do conselho determinou o surgimento de uma série de sambas descrevendo personagens bem-comportados, alguns até ex-malandros convertidos em ordeiros operários, como é o caso de "O Bonde de São Januário": "Quem trabalha é que tem razão / eu digo e não tenho medo de errar / o bonde de São Januário / leva mais um operário / sou eu que vou trabalhar". Na segunda parte, o protagonista confessa que "antigamente não tinha juízo", mas "resolveu garantir o seu futuro" e agora "vive bem", terminando por afirmar que "a boemia não dá camisa a ninguém".

Ciro Monteiro

Com este samba a dupla Wilson Batista - Ataulfo Alves bisou no carnaval de 41 o êxito de "Ó Seu Oscar" no ano anterior, inclusive repetindo o intérprete, Ciro Monteiro. Localizado no bairro de São Januário, o estádio do Vasco da Gama acabou por inspirar uma paródia (talvez de autoria do próprio Wilson, flamenguista inveterado) que dizia: "O bonde de São Januário / leva um português otário / pra ver o Vasco apanhar,..".

O Bonde de São Januário (samba/carnaval, 1941) - - Wilson Batista e Ataulfo Alves

Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário / Leva mais um operário:
Sou eu que vou trabalhar

Antigamente eu não tinha juízo / Mas resolvi garantir meu futuro
Vejam vocês: / Sou feliz, vivo muito bem
A boemia não dá camisa a ninguém / É, digo bem.

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